Entrevista com Nara Roesler

1. Descreva de forma sintetizada seu espaço/estande na SP-Arte. Alguns temas recorrentes que gostaria de ressaltar?

Nara Roesler - No nosso stand na SP-Arte, procuramos reunir o que de mais fresco nossos artistas produzem a suas obras históricas, sempre pensando na transversalidade de seus trabalhos entre si e em relação à cena artística. Buscamos relacionar poéticas e estilos complementares da mesma forma que nas exposições da galeria, o que insere na atualidade as questões abordadas.

Vários artistas seminais representados por nós transitam num universo que dialoga com o de nomes surgidos depois. Um exemplo é Paulo Bruscky, fundamental desde os anos 1960-70 até hoje por sua experimentação com novas mídias, arte postal e arte política em diversas acepções. Ladeado por Milton Machado, outro nome do período, Bruscky abriu um caminho que possibilita a existência das poéticas de Marcos Chaves e de Alice Miceli, por exemplo. A busca pela transformação do espaço permeia tanto a produção de Artur Lescher quanto a de Eduardo Coimbra. Na procura por outros modos de narrar, inscrevem-se trabalhos como o de Cao Guimarães, Virgínia de Medeiros, Raul Ramirez Jonas e Isaac Julien. Pictoricamente, podemos posicionar em órbitas próximas nomes como Antonio Dias, Karin Lambrecht, Cristina Canale e Bruno Dunley, se observarmos as pesquisas de cor, de forma e de representação; da mesma forma que a impressão do fantástico e do pop gera universos peculiares como os de Oscar Oiwa e Rodolpho Parigi. A síntese das esculturas de Tomie Ohtake é passível de relações sutis com as formas mais orgânicas dos tridimensionais de Angelo Venosa, que por sua vez tem questões que reverberam em intervenções de Carlito Carvalhosa. Cinéticos como Julio Le Parc e Abraham Palatnik desembocam em Raul Mourão, que insere um dado crítico, político nessa corrente. A sede de conservação e de aglomeração material liga alguns trabalhos de Marcelo Silveira a outros de Vik Muniz. Enfim, por meio de nosso cast de artistas, que ainda inclui Helio Oiticica, Sergio Sister, Fabio Miguez, José Patrício, Marco Maggi, Laura Vinci, Luzia Simmons e Melanie Smith, enveredamos pela história da arte de forma a evidenciar seus caminhos, derivações e tendências.

2. Escolha dois a quatro trabalhos que serão exibidos na feira, para uma análise mais profunda, a saber, histórias ou características que possam interessar a um ávido colecionador, ou a um visitante que queira saber mais sobre o artista e/ou a obra.

NR – Vik Muniz tem sua obra Sandcastle #1 (Château de Chambord), do ano passado, incluída na seleção. Nela, o artista apresenta uma fotografia tirada do desenho de um castelo francês em um minúsculo grão de areia. Foi um trabalho que Vik desenvolveu conjuntamente com o pesquisador do MIT Marcelo Coelho, que teve de inventar uma forma de desenhar em um elemento tão microscópico. Com essa obra, Vik Muniz volta a trabalhar a questão da escala, mas num viés radicalmente oposto ao de séries como Earthworks, que trazia desenhos em macrodimensões realizados por escavadeiras direto no solo, dos quais o artista tirou fotos aéreas. Em Sandcastle, o extremo da miniaturização sugere a delicadeza de um universo que pode existir mesmo além do alcance da visão. E o papel de Vik aí é, justamente, ser a ponte entre esse universo invisível e o olhar humano.

Continuel mobile, uma das obras da série criada por Julio Le Parc na década de 1960, causa grande impacto visual por sua composição - diversas placas de acrílico suspensas por fios –, que alia tridimensionalidade à leveza dos materiais translúcidos, flertando com a imaterialidade.

A produção de Antonio Dias também está contemplada com o díptico Air destroying gorgeous monuments / Sun Photo as Self-Portrait, produzido no início dos anos 1990, em que folhas de cobre e ouro imprimem na sedimentação do grafite a impressão de plano e contraplano. Nele já está em curso a pesquisa pictórica do artista que culmina nas obras em exibição na Galeria Nara Roesler entre 1º de abril e 6 de maio.

Jardimdas Torturas é uma série de fotos e vídeo que Virgínia de Medeiros exibe no projeto Solo da SP-Arte, com curadoria de Rodrigo Moura (Inhotim).

3.Descreva-nos em cinco etapas (ou menos) o cronograma de sua carreira no mundo das artes, desde o seu primeiro emprego até a abertura de sua galeria. Qual a experiência ou lição mais relevante desta época que influenciou a forma como foi criado o seu próprio espaço? Qual a sua missão como galerista?

NR – Comecei com uma galeria no Recife na década de 1980, me mudei para São Paulo e, em 1989, transferi meu espaço de trabalho para a capital paulista. Desde o início, em Pernambuco, buscava conectar dois “Brasis”: representava José Claudio, artista local, mas já fazia exposições com expoentes como Iberê Camargo, Siron Franco e Sérvulo Esmeraldo. Então unir nomes consagrados a nomes incipientes, artistas locais a outros de grande projeção, sempre foi uma das minhas marcas. O aspecto da educação, de possibilitar ao público um envolvimento maior com as questões da arte, é outra premissa. Sempre promo-vi e ainda promovo cursos, crio publicações e faço iniciativas que explicitam os meandros desse universo multifacetado. Outro passo natural com o passar do tempo foi a internacionalização da galeria, num esforço de abrir a produção nacional para o mundo, no interesse crescente pela arte daqui. Se é cabível definir em poucas palavras minha missão como galerista, diria que sou uma mediadora que procura ampliar as possibilidades de conexões geográficas, temáticas, estéticas e culturais que a arte é capaz de produzir (e traduzir), criando condições para que os artistas que represento evoluam e ganhem projeção no Brasil e no mundo, e compartilhando esse universo com o público.

4. Quais os seus planos para o resto de 2014 para a sua galeria?

NR – Neste ano, vamos ampliar atividades, com a abertura de uma galeria nossa no Rio de Janeiro prevista para maio. Além disso, seguimos nossas atividades em feiras ao redor do mundo, como a SP-Arte, nas exposições de nosso cast e nas mostras Roesler Hotel, que trazem curadores internacionais para criar recortes sobre as questões da arte na atualidade. Essa é a nossa forma de seguir criando as melhores condições para que nossos artistas produzam e circulem, além de trazer os espectadores cada vez mais para dentro do universo artístico.

SP-Arte 2014. 

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